26 de fevereiro – aniversário de Victor Hugo

26 de fevereiro – aniversário de Victor Hugo

Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 — Paris, 22 de maio de 1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras de renome mundial.

Victor Hugo, grande nome da literatura francesa, nasceu em 1802 e veio a desencarnar em 1885, com 83 anos de idade. Escreveu 22 livros de poesias, até hoje recitadas pelos franceses e ensinadas nas escolas; 08 romances, dentre os quais os memoráveis “Os Miseráveis” e “O Corcunda de Notre-Dame”, ambos com incontáveis adaptações para o cinema e o teatro; 14 peças de teatro, sendo que várias delas não param de ser encenadas; mais 15 volumes de prosa em não-ficção, ensaios, diários, artigos políticos, entre outros.

Conhecido por seu devotamento às causas sociais, fosse em seus discursos ou nas obras literárias, levou-o a defender a paz universal, os direitos das crianças e dos homens, a abolição da pena de morte e o progresso social.
A crença em Deus é uma constante em seu pensamento. Para ele, não havia espaço para a fé cega, mas para o exercício do pensamento, da dúvida, da razão: “Deus é o astro de amor brilhando no infinito e visível pelos olho da alma.”

Victor Hugo foi um dos precursores do Espiritismo na França. Seu contato inicial com fenômenos mediúnicos foi em 1853, antes mesmo de Allan Kardec, quando, durante um exílio em Jersey junto com sua família, pode observar as chamadas “mesas girantes” nas reuniões de Madame Emile de Girardin. Inclusive, no item 144 do livro dos Médiuns o próprio Kardec homenageia esta precursora, chamando tal fenômeno de “mesas Giradin.”

Apesar de Victor Hugo preocupar-se em não deixar se influenciar por tais experiências, a comunicação com os mortos transformou sensivelmente seus valores e portanto sua obra.

Emannuel Godo, no livro “Victor Hugo et Dieu”, afirma que o contato de Victor Hugo com as mesas girantes trouxe-lhe não somente a certeza da existência como da presença tangível dos Espíritos. A partir daquela época, o próprio escritor passou a vivenciar fenômenos dentro de sua casa como ruídos, visões e premonições, como comprovam as anotações pessoais de sua agenda, guardada atualmente na Biblioteca Nacional de Paris.

Em 1899 Camille Flammarion afirmou, em “Les Annales Politiques et Litteraires”, que Victor Hugo, alguns anos antes de sua morte, havia confessado que jamais deixou de acreditar nas manifestações dos espíritos. Ele mesmo escreveu o seguinte sobre os fenômenos em geral (sonambulismo, visões, mesas girantes, entre outros):
“Se abandonardes os fatos, tomai cuidado, os charlatões ai se alojarão, e os imbecis também. Não há meio termo: ou ciência ou ignorância. Se a ciência não quiser estes fatos, a ignorância os tomará…

Os Miseráveis foi publicado pela primeira vez, na França, em 1862. Transformou-se logo em sucesso e foi traduzido para diversas línguas. A obra fala de injustiça social e de como, ainda nesse meio, há possibilidade de transformação graças à bondade que sobrevive. É um verdadeiro clássico, pois apesar de ter sido escrito no século XIX, continua a ultrapassar barreiras de tempo e espaço, tocando pessoas do mundo todo. Os personagens do livro são muitos próximos daqueles com os quais nos deparamos diariamente.

Enfim, Os Miseráveis é um livro que alia a sabedoria no uso da língua à profundidade de um tema. É uma obra na qual são relatados interesses e atitudes mesquinhas, mas também grandes gestos de desprendimento e bondade.

http://www.folhaespirita.com.br/v2/node/10?q=node/172

nota: Os Miseráveis tem um final espírita.

Livro em PDF: Victor Hugo Espírita (título original: Víctor Hugo – El Poeta del Mas Allá) de Humberto Mariotti – Tradução de Wilson Garcia

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Victor Hugo Espírita
título original: Víctor Hugo – El Poeta del Mas Allá
de Humberto Mariotti
Tradução de Wilson Garcia

http://bvespirita.com/Victor%20Hugo%20Esp%C3%ADrita%20%28Humberto%20Mariotti%29.pdf

Livro em PDF – BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO, Espírito: Humberto de Campos Chico Xavier Livro – 006 / Ano – 1938 / Editora – FEB

Livro em PDF

BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO
Espírito: Humberto de Campos
Chico Xavier
Livro – 006 / Ano – 1938 / Editora – FEB

Este livro é “a revelação da missão coletiva de um país”, como define o Espírito Emmanuel, que o prefacia. Ditado em 1938 a Francisco Cândido Xavier, nele o autor, que em obras posteriores passou a utilizar o pseudônimo Irmão X, analisa fatos da História do Brasil, objetivando demonstrar a missão evangelizadora da nação e o acompanhamento feito por Jesus do seu processo evolutivo. A partir de dados colhidos no plano espiritual, tece comentários sobre a escravidão, os movimentos nativistas, a independência, a Guerra do Paraguai, o Espiritismo e o Movimento Espírita no Brasil. Explica a missão da pátria brasileira como “coração espiritual da Terra”, evidenciada pela espontânea e enorme acolhida que a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, teve em nosso país, concitando o povo à prática do Evangelho de Jesus, a fim de irradiar à Humanidade a paz e a fraternidade.

http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/bibliotecavirtual/chicoxavier/Brasil_Coracao_do_Mundo_Patria_do_Evangelho.pdf

Alcoólatra – Joaquim Dias – Vozes do Grande Além — Autores diversos ©, Chico Xavier

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Alcoólatra

Reunião da noite de 12 de janeiro de 1956. Emocionadamente, o nosso grupo recebeu a visita de Joaquim Dias, n pobre espírito sofredor que nos trouxe o doloroso relato de sua experiência da qual recolhemos amplo material para estudo e meditação.

1 Alcoólatra!
Que outra palavra existirá na Terra, encerrando consigo tantas potencialidades para o crime?
2 O alcoólatra não é somente o destruidor de si mesmo. É o perigoso instrumento das trevas, ponte viva para as forças arrasadoras da lama abismal.
3 O incêndio que provoca desolação aparece numa chispa.
O alcoolismo que carreia a miséria nasce num copinho.
4 De chispa em chispa, transforma-se o incêndio em chamas devoradoras.
De copinho a copinho, o vício alcança a delinquência.
5 Hoje, farrapo de alma que foi homem, reconheço que, ontem, a minha tragédia começou assim…
Um aperitivo inocente…
Uma hora de recreio…
Uma noite festiva…
6 Era eu um homem feliz e trabalhador, vivendo em companhia de meus pais, de minha esposa e um filhinho.
7 Uma ocasião, porém, surgiu em que tive a infelicidade de sorver alguns goles do veneno terrível, disfarçado em bebida elegante, tentando afugentar pequeninos problemas da vida e, desde então, converti-me em zona pestilencial para os abutres da crueldade.
8 Velhos inimigos desencarnados de nossa equipe familiar fizeram de mim seu intérprete.
9 A breve tempo, abandonei o trabalho, fugi à higiene e apodreci meu caráter, trocando o lar venturoso pela taverna infeliz.
10 Bebendo por mim e por todas as entidades viciosas que nos hostilizavam a casa, falsifiquei documentos, matando meu pai com medicação indevida, depois de arrojá-lo à extrema ruína.
11 Mais tarde, tornando-me bestial e inconsciente, espanquei minha mãe, impondo-lhe a enfermidade que a transportou para a sepultura.
12 Depois de algum tempo, constrangi minha esposa ao meretrício, para extorquir-lhe dinheiro, assassinando-a numa noite de horror e fazendo crer que a infeliz se envenenara usando as próprias mãos e, de meu filho, fiz um jovem salteador e beberrão, muito cedo eliminado pela polícia.
13 Réprobo social, colhia tão somente as aversões que eu plantava.
14 Muitas vezes, em relâmpagos de lucidez, admoestava-me a consciência:
— Ainda é tempo! Recomeça! Recomeça!
15 Entretanto, fizera-me um homem vencido e cercado pelas sombras daqueles que, quanto eu, se haviam consagrado no corpo físico à criminalidade e à viciação, e essas sombras rodeavam-me apressadas, gritando-me, irresistíveis:
— Bebe e esquece! Bebe, Joaquim!…
16 E eu me embriagava, sequioso de olvidar a mim mesmo, até que o delírio agudo me sitiou num catre de amargura e indigência.
17 A febre, a enfermidade e a loucura consumiram-me a carne, mas não percebi a visitação da morte, porque fui atraído, de roldão, para a turba de delinquentes a que antes me afeiçoara. 18 Sofri-lhes a pressão, assimilei-lhes os desvarios e, com eles, procurei novamente embebedar-me.
A taverna era o meu mundo, com a demência irresponsável por meu modo de ser…
19 Ai de mim, contudo! Chegou o instante em que não mais pude engodar minha sede!…
A insatisfação arrasava-me por dentro, sem que meus lábios conseguissem tocar, de leve, numa gota do líquido tentador.
20 Deplorando a inexplicável inibição que me agravava os padecimentos, afastei-me dos companheiros para ocultar a desdita de que me via objeto.
21 Caminhei sem destino, angustiado e semilouco, até que me vi prostrado num leito espinhoso de terra seca…
Sede implacável dominava-me totalmente…
22 Clamei por socorro em vão, invejando os vermes do subsolo.
Palavra alguma conseguiria relatar a aflição com que implorei do Céu uma gota d’água que sustasse a alucinação de minhas células gustativas…
23 Meu suplício ultrapassava toda humana expressão…
Não passava de uma fogueira circunscrita a mim mesmo.
24 Começaram, então, para mim, as miragens expiatórias.
Via-me em noite fresca e tranquila, procurando o orvalho que caía do céu para dessedentar-me, enfim, mas, buscando as bagas do celeste elixir, elas não eram, aos meus olhos, senão lágrimas de minha mãe, cuja voz me atingia, pranteando em desconsolo:
— Não me batas, meu filho! Não me batas, meu filho!…
25 Devolvido à flagelação, via-me sob a chuva renovadora, mas, tentando sorver-lhe o jorro, nele reconhecia o pranto de meu pai, cujas palavras derradeiras me impunham desalento e vergonha:
— Filho meu, por que me arruinaste assim?
26 Arrojava-me ao chão, mergulhando meu ser na corrente poluída que o temporal engrossava sempre, na esperança de aliviar a sede terrível, mas, na própria lama do enxurro, encontrava somente as lágrimas de minha esposa, de mistura com recriminações dolorosas, fustigando-me a consciência:
— Por que me atiraste ao lodo? e por que me mataste, bandido?
27 De novo regressava ao deserto que me acolhia, para logo após me entregar à visão de fontes cristalinas…
Enlouquecido de sede, colava a boca ao manancial, que se convertia em taça de fel candente, da qual transbordavam as lágrimas de meu filho, a bradar-me, em desespero:
— Meu pai, meu pai, que fizeste de mim?
28 Em toda parte, não surpreendia senão lágrimas…
Arrastei-me pelos medonhos caminhos de minha peregrinação dolorosa, como um Espírito amaldiçoado que o vício metamorfoseara em peçonhento réptil…
Suspirava por água que me aliviasse o tormento, mas só encontrava pranto…
Pranto de meu pai, de minha mãe, de minha esposa e de meu filho a perseguir-me, implacável…
29 Alma acicatada por remorsos intraduzíveis, amarguei provações espantosas, até que mãos fraternas me trouxeram à bênção da oração…
30 Piedosos enfermeiros da Vida Espiritual e mensageiros da Bondade Divina, pelos talentos da prece, aplacaram-me a sede, ofertando-me água pura…
Atenuou-se-me o estranho martírio, embora a consciência me acuse…
31 Ainda assim, amparado por aqueles que vos inspiram, ofereço-vos o triste exemplo de meu caso particular para escarmento daqueles que começam de copinho a copinho, no aperitivo inocente, na hora de recreio ou na noite festiva, descendo desprevenidos para o desequilíbrio e para a morte…
32 E, em vos falando, com o meu sofrimento transformado em palavras, rogo-vos a esmola dos pensamentos amigos para que eu regresse a mim mesmo, na escabrosa jornada da própria restauração.

Joaquim Dias

[1] JOAQUIM DIAS — Amigo espiritual não identificado.

Vozes do Grande Além — Autores diversos ©, Chico Xavier

http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TXavieriano/Livros/Vga/Vga31.htm

Ressurreição e reencarnação – O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo IV – Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo, pp. 68 a 72, de Allan Kardec

Ressurreição e reencarnação

4. A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome
de ressurreição. Só os saduceus, cuja crença era a de que tudo acaba com a morte, não acreditavam nisso. As ideias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não eram claramente definidas, porque apenas tinham vagas e incompletas noções acerca da alma e da sua ligação com o corpo. Criam eles que um homem que vivera podia reviver, sem saberem precisamente de que maneira o fato poderia dar-se. Designavam pelo termo
ressurreição o que o Espiritismo, mais judiciosamente, chama reencarnação.
Com efeito, a ressurreição dá ideia de voltar à vida o corpo que já
está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já se acham desde muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo. A palavra ressurreição podia assim aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, segundo
a crença deles, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João fora visto criança e seus pais eram conhecidos. João, pois, podia ser Elias reencarnado, porém, não ressuscitado.
5. Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos judeus — que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: “Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele.”
Jesus lhe respondeu: “Em verdade, em verdade, digo-te: Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.”
Disse-lhe Nicodemos: “Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?”
Retorquiu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, digo-te: Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. — O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. — Não te admires de que Eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. — O Espírito sopra onde quer
e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito.”
Respondeu-lhe Nicodemos: “Como pode isso fazer-se?” — Jesus lhe observou:
“Pois quê! és mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. Mas se não me credes quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis quando vos fale das
coisas do céu?” (João, 3:1 a 12.)
6. A ideia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam
reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (itens 1, 2, 3). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras. Longe disso, Ele a sanciona com toda a sua autoridade e a põe por princípio e como condição necessária quando diz: “Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.” E insiste, acrescentando: “Não te
admires de que Eu te haja dito ser preciso nasças de novo.”
7. Estas palavras: Se um homem não renasce da água e do Espírito
foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. O texto primitivo, porém, rezava simplesmente: não renasce da água e do Espírito, ao passo que nalgumas traduções as palavras — do Espírito — foram substituídas pelas seguintes: do Santo Espírito, o que já não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários a que os Evangelhos deram lugar, como se comprovará um
dia, sem equívoco possível.7
8. Para se apanhar o verdadeiro sentido dessas palavras, cumpre também se atente na significação do termo água que ali não fora empregado na acepção que lhe é própria.
Muito imperfeitos eram os conhecimentos dos antigos sobre as ciências físicas. Eles acreditavam que a Terra saíra das águas e, por isso, consideravam a água como elemento gerador absoluto. Assim é que em Gênesis, capítulo 1, se lê: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas; flutuava sobre as águas; Que o firmamento seja feito no meio das águas; Que as águas que estão debaixo do céu se reúnam em um só lugar e que apareça o elemento árido; Que as águas produzam animais vivos que nadem na água
e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento.”
Segundo essa crença, a água se tornara o símbolo da natureza material, como o Espírito era o da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem não renasce da água e do Espírito, ou em água e em Espírito”, significam pois: “Se o homem não renasce com seu corpo e sua alma.” É nesse sentido que a princípio as compreenderam.
Tal interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: O que
é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Jesus estabelece aí uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. O que é nascido da carne é carne indica claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito independe deste.
9. O Espírito sopra onde quer; ouves-lhe a voz, mas não sabes nem donde ele vem, nem para onde vai: pode-se entender que se trata do Espírito de Deus, que dá vida a quem ele quer, ou da alma do homem. Nesta última acepção — “não sabes donde ele vem, nem para onde vai” — significa que ninguém sabe o que foi, nem o que será o Espírito. Se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo tempo que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o começo. Como quer que seja, essa passagem
consagra o princípio da preexistência da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.
10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o Reino dos Céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o Elias que há de vir. Ouça-o aquele que tiver ouvidos
de ouvir. (Mateus, 11:12 a 15.)
11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em
João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de Mateus, que não permite equívoco: ele mesmo é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. — “Desde o tempo de João Batista até o presente o Reino dos Céus é tomado pela violência.” Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: “Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que
há de vir.” Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. “Até o presente o Reino dos Céus é tomado pela violência”: outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos Hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.
E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.
12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes. (Isaías, 26:19.)
13. É também muito explícita esta passagem de Isaías: “Aqueles do
vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo.” Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito:
ainda vivem, e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um contrassenso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.
14. Mas quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo, separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? — Tendo morrido uma vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os dias da minha vida, espero que chegue a minha mutação. (Jó, 14:10 e 14. Tradução de Lemaistre de Sacy.)
Quando o homem morre, perde toda a sua força, expira. Depois, onde está ele?
— Se o homem morre, viverá de novo? Esperarei todos os dias de meu combate, até que venha alguma mutação? (Idem. Tradução protestante de Osterwald.)
Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (Idem. Versão da Igreja grega.)
15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências
se acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que Jó haja querido falar da regeneração pela água do batismo, que ele decerto não conhecia.
“Tendo o homem morrido uma vez, poderia reviver de novo?” A ideia de morrer uma vez, e de reviver implica a de morrer e reviver muitas vezes.
A versão da Igreja grega ainda é mais explícita, se é que isso é possível:
“Acabando os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei”, ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro, como se alguém dissesse: “Saio de minha casa, mas a ela tornarei.”
“Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida,
espero que se dê a minha mutação.” Jó, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega, esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: “Quando a minha existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei.” Jó como que se coloca, após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará o
momento de voltar.
16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o
princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo.
Um dia, porém, suas palavras, quando forem meditadas sem ideias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.
17. A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de vista filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos.
Quando se trata de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade absoluta, como condição inerente à Humanidade; numa palavra: como Lei da Natureza. Pelos seus resultados, ela se evidencia, de modo, por assim dizer, material, da mesma forma que o motor oculto se revela pelo movimento. Só ela pode dizer ao homem donde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as aparentes injustiças que a vida apresenta.8
Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que hão dado lugar a tão contraditórias interpretações. Está nesse princípio a chave que lhes restituirá o sentido verdadeiro.

7 Nota de Allan Kardec: A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo. Diz: “Não renasce da água e do Espírito”; a de Sacy diz: do Santo Espírito; a de Lamennais: do Espírito Santo.
À nota de Allan Kardec, podemos hoje acrescentar que as modernas traduções já restituíram o texto primitivo, pois que só imprimem “Espírito”, e não Espírito Santo. Examinamos a tradução brasileira, a inglesa, a em Esperanto, a de Ferreira de Almeida, e em todas elas está somente “Espírito”.
Além dessas modernas, encontramos a confirmação numa latina de Theodoro de Beza, de 1642, que diz: “…genitus ex aqua et Spiritu…” “…et quod genitum est ex Spiritu, spiritus est.”
É fora de dúvida que a palavra “Santo” foi interpolada, como diz Kardec.
8 Nota de Allan Kardec: Veja-se, para os desenvolvimentos do dogma da reencarnação, O livro dos espíritos, caps. IV e V; O que é o espiritismo, cap. II, por Allan Kardec; Pluralidade das existências, por Pezzani.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo IV – Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo, pp. 68 a 72, de Allan Kardec

http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2014/05/O-evangelho-segundo-o-espiritismo.pdf

ANJOS E DEMÔNIOS – O Livro dos Espíritos, parte segunda: Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, capítulo I – Dos Espíritos, pp. 132-135, de Allan Kardec

ANJOS E DEMÔNIOS

128. Os seres a que chamamos anjos, arcanjos, serafins,
formam uma categoria especial, de natureza diferente
da dos outros Espíritos?
“Não; são os Espíritos puros: os que se acham no mais
alto grau da escala e reúnem todas as perfeições.”
A palavra anjo desperta geralmente a idéia de perfeição moral.
Entretanto, ela se aplica muitas vezes à designação de todos os
seres, bons e maus, que estão fora da Humanidade. Diz-se: o
anjo bom e o anjo mau; o anjo de luz e o anjo das trevas. Neste caso, o termo é sinônimo de Espírito ou de gênio. Tomamo-lo aqui na sua melhor acepção.
129. Os anjos hão percorrido todos os graus da escala?
“Percorreram todos os graus, mas do modo que
havemos dito: uns, aceitando sem murmurar suas missões,
chegaram depressa; outros, gastaram mais ou menos
tempo para chegar à perfeição.”
130. Sendo errônea a opinião dos que admitem a existência
de seres criados perfeitos e superiores a todas as outras
criaturas, como se explica que essa crença esteja
na tradição de quase todos os povos?
“Fica sabendo que o mundo onde te achas não existe de
toda a eternidade e que, muito tempo antes que ele existisse,
já havia Espíritos que tinham atingido o grau supremo.
Acreditaram os homens que eles eram assim desde todos
os tempos.”
131. Há demônios, no sentido que se dá a esta palavra?
“Se houvesse demônios, seriam obra de Deus. Mas,
porventura, Deus seria justo e bom se houvera criado seres
destinados eternamente ao mal e a permanecerem eternamente
desgraçados? Se há demônios, eles se encontram no
mundo inferior em que habitais e em outros semelhantes.
São esses homens hipócritas que fazem de um Deus justo um Deus mau e vingativo e que julgam agradá-lo por meio
das abominações que praticam em seu nome.”
A palavra demônio não implica a idéia de Espírito mau, senão
na sua acepção moderna, porquanto o termo grego daïmon,
donde ela derivou, significa gênio, inteligência e se aplicava aos
seres incorpóreos, bons ou maus, indistintamente.
Por demônios, segundo a acepção vulgar da palavra, se entendem
seres essencialmente malfazejos. Como todas as coisas,
eles teriam sido criados por Deus. Ora, Deus, que é soberanamente
justo e bom, não pode ter criado seres prepostos, por sua
natureza, ao mal e condenados por toda a eternidade. Se não
fossem obra de Deus, existiriam, como ele, desde toda a eternidade, ou então haveria muitas potências soberanas.
A primeira condição de toda doutrina é ser lógica. Ora, à dos
demônios, no sentido absoluto, falta esta base essencial. Concebe-se que povos atrasados, os quais, por desconhecerem os atributos
de Deus, admitem em suas crenças divindades maléficas,
também admitam demônios; mas, é ilógico e contraditório que
quem faz da bondade um dos atributos essenciais de Deus suponha haver ele criado seres destinados ao mal e a praticá-lo perpetuamente, porque isso equivale a lhe negar a bondade. Os partidários dos demônios se apoiam nas palavras do Cristo. Não
seremos nós quem conteste a autoridade de seus ensinos, que
desejáramos ver mais no coração do que na boca dos homens;
porém, estarão aqueles partidários certos do sentido que ele dava
a esse vocábulo? Não é sabido que a forma alegórica constitui um
dos caracteres distintivos da sua linguagem? Dever-se-á tomar
ao pé da letra tudo o que o Evangelho contém? Não precisamos
de outra prova além da que nos fornece esta passagem:
“Logo após esses dias de aflição, o Sol escurecerá e a Lua
não mais dará sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências do
céu se abalarão. Em verdade vos digo que esta geração não
passará, sem que todas estas coisas se tenham cumprido.”
Não temos visto a Ciência contraditar a forma do texto bíblico, no tocante à Criação e ao movimento da Terra? Não se dará
o mesmo com algumas figuras de que se serviu o Cristo, que
tinha de falar de acordo com os tempos e os lugares? Não é possível que ele haja dito conscientemente uma falsidade. Assim, pois, se nas suas palavras há coisas que parecem chocar a razão, é que não as compreendemos bem, ou as interpretamos mal.
Os homens fizeram com os demônios o que fizeram com os
anjos. Como acreditaram na existência de seres perfeitos desde
toda a eternidade, tomaram os Espíritos inferiores por seres perpetuamente maus. Por demônios se devem entender os Espíritos impuros, que muitas vezes não valem mais do que as entidades designadas por esse nome, mas com a diferença de ser transitório o estado deles. São Espíritos imperfeitos, que se rebelam contra as provas que lhes tocam e que, por isso, as sofrem mais
longamente, porém que, a seu turno, chegarão a sair daquele
estado, quando o quiserem. Poder-se-ia, pois, aceitar o termo demônio com esta restrição. Como o entendem atualmente, dando-
-se-lhe um sentido exclusivo, ele induziria em erro, com o fazer
crer na existência de seres especiais criados para o mal.
Satanás é evidentemente a personificação do mal sob forma
alegórica, visto não se poder admitir que exista um ser mau a
lutar, como de potência a potência, com a Divindade e cuja única
preocupação consistisse em lhe contrariar os desígnios. Como
precisa de figuras e imagens que lhe impressionem a imaginação,
o homem pintou os seres incorpóreos sob uma forma material,
com atributos que lembram as qualidades ou os defeitos humanos.
É assim que os antigos, querendo personificar o Tempo, o
pintaram com a figura de um velho munido de uma foice e uma
ampulheta. Representá-lo pela figura de um mancebo fora contra-senso.
O mesmo se verifica com as alegorias da fortuna, da
verdade, etc. Os modernos representaram os anjos, os puros Espíritos, por uma figura radiosa, de asas brancas, emblema da
pureza; e Satanás com chifres, garras e os atributos da animalidade, emblema das paixões vis. O vulgo, que toma as coisas ao pé da letra, viu nesses emblemas individualidades reais, como vira outrora Saturno na alegoria do Tempo.

O Livro dos Espíritos, parte segunda: Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, capítulo I – Dos Espíritos, pp. 132-135, de Allan Kardec

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